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| 25/08/2005 |
Frases 03
Da série "respostas que não aguento mais dar" (3)
"Ele tem unhas, não garras. Entendeu? Unhas. Bem diferente de garras. Ficou claro?"
Escrito por Flavio F. Soarez às 21h24
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Cotidiano 04
Sono
Em toda a regra sempre há uma excessão.
Hoje, sabe-se lá porque cargas d'água, Logan resolveu fazer birra para dormir. Sabe aquela coisa chata de lutar contra o sono? Esfregar os olhinhos, resmungar, gritar "uuulhéééooo!" e esfregar os olhinhos de novo. E os pais sempre na dúvida: "Mas o que ele tem hoje?"
E começam as especulações: "Será fome?", "será que a fralda tá suja", "fez cocô, bebê?", "foi por causa da sopa ruim do pai?", "você quer mesmo voltar à questão da sopa? Tem certeza disso?". E com as especulações, vêm as checagens de rotina:
Fralda? OK. Roupa seca? OK. Papinha? OK.
Tudo OK. Nenhuma pendência. Queria eu que minha vida se resumisse ao estado de minhas fraldas — não que eu as use — e à quantidade de papinha que ingeri...
Mas, no mundo de Logan é tudo assim simples. E quando a birra chega, chega também a hora em que um homem tem que mostrar que é homem e, mais do que isso, mostrar que é o homem da casa (nem faça essa cara de "mas ele só tem oito meses, seu monstro!"). Certas atitudes precisam ser tomadas no momento certo.
E foi nesse exato momento — porque, assim como os magos, os pais tomam as atitudes necessárias no momento apropriado, nem antes, nem depois (citação obrigatória à Senhor dos Anéis, filme dirigido por Peter Jackson) —, que peguei o pequenino no colo, levei-o até o berço e encostei a porta.
Após cinco minutos de "uuulhéééooo!", o silêncio era total. Logan dormia de lado e sem apoio (explico isso numa outra ocasião), como um bebê.
Tá bom, eu sei que ele é um bebê e que bebês dormem como bebês... já vi muito bebê dormir pra saber como é que eles dormem. Mas se você não colaborar, não vamos ter magia nenhuma neste texto. E nós gostamos de textos com um pouco de magia, não gostamos? Ééééé claro que sim!!!
Boa noite, pessoal. Boa noite, Logan. Boa noite, John Boy.
Escrito por Flavio F. Soarez às 20h56
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| 24/08/2005 |
Cotidiano 03
Sopa
Sempre ouvi dizer que não importa muito o gosto da papinha que é dada aos bebês. Que isso não vem ao caso, uma vez que o paladar deles não está totalmente desenvolvido. “É só não fazer a papa muito insossa e nem muito aguada”.
Será mesmo?
Acho que não, e explico o porquê.
Para os que não sabem, consigo me virar com relativa facilidade e jogo de cintura em uma cozinha. Não estou no nível de um grande chef (ainda), mas ninguém passa mal com a minha comida. Há dois meses — quase três, na verdade —, a pediatra de Logan, doutora Flavia Navarro, o liberou para ingerir papinhas.
“Vai ser super-divertido. Vocês vão ver só as caretas hilárias que ele vai fazer”, ela disse. “É muito engraçado quando eles começam a comer”. Sei. O meu veio com defeito, então. Desde a primeira colherada, Logan nunca fez uma careta sequer. Tampouco cuspiu, por falta de familiaridade, comida de volta. Tudo que comeu, continuou no estômago. Impressionante... Não tenho nenhuma história de “careta” pra contar. Tudo bem. Mesmo assim, um fato engraçado aconteceu.
A primeira papinha foi feita pela mãe dele. Comeu bem. Tudo. Limpou o prato. Já a segunda, foi feita por mim. Mesma boa recepção. Não ficou nada no prato. “Muito bem, bebê! Comendo até a sopa ruim do pai!”, era a piada do dia. E então fiz a terceira e a quarta sopas. “Nada a relatar, capitão. O bebê comeu tudo!”. Sensacional!
Mas um dia, eu não pude fazer a comida dele, por causa do trabalho. A mãe fez. E Logan não comeu. Cuspiu. Reclamou. Chiou e teve que comer uma papinha pronta, dessas que são vendidas nos supermercados. Decepção suprema.
Voltei a fazer e ele voltou a comer. “Que coisa? Não tem nada de diferente na sua sopa para a que eu faço...”. E não tinha mesmo. Ingredientes iguais, mesmo tempo de preparo, mesma panela... Tudo igual. Mas ainda assim, ele só comia a sopa feita por mim. E continua assim até hoje.
Acredito que a diferença está num detalhe muito simples: Eu cozinho como uma forma de prazer. Me sinto bem em uma cozinha e me sinto melhor ainda ao ver a satisfação de quem come um prato que preparei. É assim que eu cozinho para ele.
Separo os ingredientes. Tudo picado e selecionado antes. Tudo à mão, pronto para ser usado no momento certo. Mandioquinha, cebola, alho, carne, ervilha, tomate, couve azeite, sal e água. Nada está faltando. Nada está fora do meu alcance. A comida dele é feita com a pouca eficiência profissional que aprendi; imagino-a sendo servida em um restaurante — um restaurante para bebês, é claro. Me preocupo com a cor final do prato, mesmo sabendo que para ele isso não importa. “Um pouco mais de tomate, vai deixar essa sopa com uma cara muito boa.”
E assim vou acrescentando os ingredientes um à um na panela aquecida. Tudo refogado, acrescento a água, um pouco de sal, fecho a panela e deixo cozinhar. Em 50 minutos está pronta a refeição dele. Fresca, com uma cor bonita. Suculenta (a mãe já roubou um pouco para ela mesma, inclusive). E Logan come e se farta.
E eu me vejo pensando que, talvez, o meu segredo esteje aí, neste detalhe quase imperceptível: que eu cozinho para ele, como se estivesse cozinhando para um adulto que sabe reconhecer uma comida bem feita. Pode ser essa a explicação. Ou então, a mãe perdeu mesmo a mão pra cozinha (ela que não me ouça).
É engraçada esta reação dele. Esta vontade manifestada de maneira tão clara. Há muita coisa para se especular sobre isso... Pena que não podemos continuar com esta conversa. Pelo menos, não agora. A panela está no fogo há 50 minutos...
Escrito por Flavio F. Soarez às 17h30
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| 22/08/2005 |
frases 02
Da série "respostas que não aguento mais dar" (2)
"Não, meu amigo. Eu não sou um grande apreciador de whiskey"
Escrito por Flavio F. Soarez às 21h12
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cotidiano 02
Presentes
Pode parecer brincadeira mas, nunca, em qualquer situação, uma frase soa tão verdadeira quanto a velha “o que vale é a intenção” quando se trata de crianças com 1 ano e alguns meses ou até menos.
Adultos gostam de festa. Acredito que ninguém aí vai me contrariar nesta, certo? Então, o que fazemos quando nossos pimpolhos completam 1 aninho de vida? Estouramos o cartão de crédito e fazemos uma festa sensacional com direito, inclusive, à presentinhos para os pequenos convidados (“os amiguinhos do Júnior”) e para seus digníssimos pais (“só uma lembrancinha”). Até aí, nada demais.
Cada um sabe onde o sapato aperta, e o ponto deste texto não é este (dinheiro e como gastá-lo). Fica bem longe disso pra falar a verdade...
Neste domingo, Logan foi a uma festinha de aniversário. O aniversariante em questão estava completando um ano de vida. Festa bonita, tudo arrumadinho, todos muito simpáticos; nada de anormal. Tudo simples e, por isso mesmo, bom. Nada como a simplicidade.
Num determinado momento, começaram a distribuir lembrancinhas para os convidados-mirins: saquinhos plásticos opacos com alguns dos personagens da Disney estampados. Dentro deles, é claro, um bonequinho do Mickey — daqueles que os bebês adoram morder quando as gengivas estão coçando.
Confesso que fiquei admirado. Eu não teria pensado nisso. Fico imaginando os pais indo à loja, escolhendo os brinquedos, tentando decidir qual será a melhor opção e qual a melhor relação custo-benefício. E as dúvidas que não devem ter passado por suas cabeças? “Será que as crianças vão gostar?”. “Ai meu Deus! E se um deles começar a chorar por causa do brinquedo? Já imaginou o fiasco?”. “Tem certeza que esse é o mais bonitinho?”. “Anselmo, meu bem, só você ainda se lembra do Don Drácula! Pode deixar o boneco aí mesmo. Eu tô mandando, Anselmo!”.
E então, chega o grande momento: a entrega. A ansiedade. Você sente uma certa tensão no ar. Os presentinhos chegam; os dedos ávidos dos bebês agarram os pacotinhos como se mais nada existisse no mundo! Seus olhinhos brilham e então...
Brinquedinhos ao chão!
Olhei para o Logan. Era quase como se ele dissesse: “Olha o saquinho plástico legal que eu ganhei, pai!”. E voltava-se para o embrulho, mordia, esticava com as duas mãos, dava gritos de alegria e ria como só ele sabe. E ficou assim a noite toda até chegar em casa.
Hoje, ele ainda estava brincando com o saquinho plástico. É impressionante como bebês não estão nem aí para o que é o “presente”. Eles querem aquilo que chama a sua atenção. Não importa o que seja: brinquedo, embrulho do presente, um chinelo, o gato... não importa, chamou a atenção, tá valendo.
E quanto ao Mickey? Bem, ele está lá no canto, ao lado do Pateta — da mesma coleção, diga-se —, que eu havia comprado há alguns meses. Coincidentemente, ele veio em um saquinho de plástico opaco com personagens da Disney impressos. Será que o que eles vendem é a tal embalagem de plástico e o boneco é só um bônus?
Escrito por Flavio F. Soarez às 21h06
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| 21/08/2005 |
cotidiano 01
O Gato
Foi com um movimento rápido que ele saltou e se posicionou de frente para Logan. Sentado, como se fosse um rei apreciando seu reino, ele fitava o bebê com os olhos amarelos, transbordando aquela indiferença minimamente calculada que só os gatos sabem como usar.
Nos últimos 9 anos, Mignola, o gato, tem sido meu mais fiel companheiro. Chato e carente como só ele sabe ser, não consigo imaginar a casa sem seus miados. Pesado, negro, de pêlo longo e cabeça grande, ele é um belo espécime de SRD. Uma bem-sucedida mistura de um persa com uma siamesa. Um animal único que, contrariando todas as lendas que dizem à respeito dos gatos, apegou-se, sim, ao dono e não à casa.
Enquanto baixava o jornal para tomar um outro gole de café, deparei-me com a cena descrita no começo deste texto. Mignola e Logan se olhavam. Eram como oponentes que se estudam antes de uma contenda; tentando visualizar qual será o próximo movimento do adversário. E assim ficaram por um tempo. O exercício de imaginar qual teria sido o diálogo sem sons travado por eles foi fascinante.
Mas, então, um pequeno gesto fez claro todo o drama que se desenrolava à minha frente em pleno café da manhã.
Sorrindo aquele sorriso sem dentes que derrete qualquer coração, Logan olhava para mim enquanto que, com o braço esquerdo estendido, tentava alcançar o gato. Ele tinha aquele “brilho” no olhar; aquele olhar de “ah, me dá esse!”. A mão abrindo e fechando e as perninhas, como que tentando ajudá-lo na tarefa, mexendo-se freneticamente. Tudo para alcançar o gato. E ele sorria para mim.
“Então, é o gato que você quer?”, pensei, baixando a xícara. E neste movimento, vi as pequenas falhas no pêlo do meu braço. Olhei novamente para os dedinhos que não paravam de se mexer e encarei, finalmente, o gato. “Não é bem o Mignola, o que você quer, certo?”, pensei sorrindo, lembrando dos tufinhos de pêlo que ele leva para o berço sempre que o pego no colo.
E num reflexo, meio que entendendo tudo o que se passava ao seu redor, Mignola virou-se para mim e soltou aquele miado que mais parece um lamento. Fitei-o por um tempo. Os olhos amarelos suplicando por proteção, enquanto que a mãozinha do bebê não parava quieta.
“Você sabe subir em muros, ele, não. Se vira, gatão!”. E voltei para o meu jornal, lembrando que em certas disputas, o melhor é não se meter.

Os oponentes se preparam para o combate inevitável.
Escrito por Flavio F. Soarez às 10h10
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