Cotidiano 07
O olhar
Eu estou devendo uma série de histórias pra vocês sobre tudo o que Logan tem feito de divertido nas últimas semanas. Preciso contar sobre as sessões de fonoaudiologia, sobre as visitas à pediatra, à fisioterapia, seu desenvolvimento e as gracinhas inesperadas que ele tem feito. Resolvi, no entanto, começar com uma divertidinha que mostra que certos traços de personalidade passam através do sangue, sim.
Sei que vai soar esquisito escrever isso, mas não vejo porque faltar com a verdade. Eu tenho o péssimo hábito de olhar as pessoas que me desagradam, por qualquer que seja o motivo, com um olhar profundamente marcado pela indiferença. É como se passasse na minha cabeça, o tempo todo, frases como: "Por que diabos vocês está falando comigo? Eu nunca lhe dei liberdade para me dirigir a palavra. Me faz um favor... suma daqui. Suma e nunca mais apareça na minha frente". É claro que a boa educação me impede de dizer isso às pessoas (se bem que, a algumas eu digo, sim). Mas, tudo isso fica estampado no olhar. Não dá pra evitar.
Dia desses estava dirigindo, com Logan na cadeirinha dele no banco de trás do carro. Ao parar em um semáforo, olhei para trás e o chamei pelo nome. Ele se virou e me deu o "olhar fatal". Toda a indiferença estava lá, acreditem ou não. Eu mesmo pensei ter visto demais e esperei o próximo semáforo para repetir a brincadeira. Não conseguia acreditar que ele era capaz de olhar para alguém de um jeito tão parecido com o meu. Não nessa idade, pelo menos.
E, ao chegar no próximo semáforo fechado, veio o olhar. Transbordando de indiferença. Tentando me olhar de cima para baixo (apesar disso ser impossível). Não aguentei e disse: "Ei! Você ainda está muito pequeno pra olhar os outros desse jeito.". Valéria apenas riu.
Comecei a acompanhar mais atentamente seu comportamento e, sempre que alguém o interrompe, ele dá o olhar... Um olhar muito parecido com o da foto abaixo.

Como é que um bebê de menos de um ano consegue olhar alguém desse jeito? E olha que a foto mostra apenas um olhar PARECIDO com o que ele faz. Confesso que no começo fiquei injuriado, mas depois comecei a achar graça e mais: comecei a provocá-lo. Geralmente quando ele está mamando, eu mexo em uma perna, falo o nome dele uso qualquer artifício só para ver ele me encarar daquele jeito. É muito engraçado.
Dia desses, a piada teve seu grand finalle. Estávamos na casa de meu pai. Num determinado momento, ele mexeu com Logan e ganhou de presente o olhar fatal. Encarou bem o pequeninho e disse, em meio às risadas: "com quem ele aprende essas coisas?". Valéria não esperou nem a bola quicar duas vezes:
"Com quem o senhor acha, seu Flavio? Olha bem pro jeito como seu filho olha pros outros. Isso não se aprende, não. Ele nasceu assim. herdou do pai no sangue.".
Bom, pelo menos não vamos precisar do exame de paternidade.
Escrito por Flavio F. Soarez às 17h41
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