Cotidiano 28
As Crônicas Médicas: a saleta, o jaleco e o paspalho.
- parte 2
Mas, que rufem os tambores! Logan está sendo examinado por um ortopedista formado, diplomado e juramentado! Uhúúúú!
“Então, pai? O que tem de errado com a criança?”
“Não sou seu pai, doutor”, pensei. Acabei respondendo algo como: “Bem, a fisioterapeuta e a pediatra dele acharam por bem passarmos em consulta com um ortopedista”.
“E por que ele faz fisioterapia?”
É. A consulta começou animada.
“Hã? Por causa da hipotonia?”, respondi com dúvida enquanto tentava me certificar de estar na sala correta.
“Ele tem uma trissomia bem leve, não?”
“Acho que sim.”
“Ele anda?”
“Ainda não. Mas há uma preocupação porque a pisada dele está meio torta.” ”Por que você diz isso, pai” – já falei que não sou o pai do médico? – “se ele não anda?”
“Por causa disso” e coloquei o baixinho de pé e o fiz dar alguns passos para o médico ver a abertura dos pés dele. Deixo claro que, na minha leiga concepção, andar é o ato de locomover-se, de pé, por sua própria conta e sem o auxílio de outras pessoas para manter, entre outras coisas, o equilíbrio.
“Certo. E por que ele faz fisioterapia?”
Respirei fundo e respondi o mais educadamente que consegui: “Primeiro, para aprender a rolar. Depois, para aprender a engatinhar e se proteger de quedas e, agora, pra aprender a andar”.
“Entendo. Bem, pai (qual o problema desse cara?), hoje em dia não se usam mais botas ortopédicas, exceto em casos de deformidade. A própria fisioterapia eu não entendo, mas como não sou o médico dele, vamos deixar como está. É só o senhor se despreocupar que ele vai andar direitinho. Agora ele está com quase 3 anos, né? Retorne aqui quando ele estiver com 4 para reavaliarmos.”
A cena em minha cabeça foi linda. Digna de um grande filme. Nela, eu delicadamente arrancava a cabeça do “médico”, fincava-a em uma lança e a colocava em frente a minha casa pra servir de exemplo para os demais “médicos”. Infelizmente, a lei não me permite fazer isso (é hora de revermos o Código Civil).
Claro que contei a história toda para a mãe dele. Ela consultou uma médica amiga que indicou um ortopedista de verdade (particular, é claro). Marcaremos a consulta para o quanto antes.
A mim resta apenas a impotência de pagar um plano de saúde (Dix/Amico, guarde bem esse nome), que contrata paspalhos que passam alguns anos na faculdade apenas para conseguirem o direito de servirem como cabides de jalecos e irem todos os dias ao trabalho em busca, única e exclusivamente, de um contra-cheque no final do mês. Dane-se a saúde dos conveniados. “Ele faz fisioterapia por que?”
Escrito por Flavio F. Soarez às 21h21
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